Porque enquanto o nosso coração encerra de forma permanente a imagem de outro ser, não é apenas a nossa felicidade que pode a todo o momento ser destruída; quando essa felicidade se esfumou, depois de termos sofrido, então, quando adormecer o nosso sofrimento, o que é tão enganoso e precário como havia sido a própria felicidade, vem a calma. A minha acabou por voltar, porque o que, modificando o nosso estado moral, os nossos desejos, aproveitando-se de um sonho, entrou no nosso espírito, também isso se dissipa, nada possui duração e permanência, nem sequer a dor. De resto, o que sofre por amor é, como se diz em certos doentes, o seu próprio médico. Como nenhuma consolação lhe pode vir a não ser da pessoa que é causa da sua dor, e essa dor é uma emanação dela, é nela que acaba por encontrar um remédio. Ela própria lho revela a dado momento, porque à medida que a encontra dentro de si, essa dor mostra-lhe outro aspecto da pessoa chorada, umas vezes tão odiosa que não se tem sequer o desejo de a rever porque antes antes de se deleitar com ela haveria que fazê-la sofrer, e outras vezes tão doce que a doçura que se lhe atribui é mérito que se lhe concede e dela se retira uma razão para esperar. Mas embora o sofrimento que se renovara em mim tenha acabado por amainar, só raramente quis voltar a casa da senhora Swann.
Marcel Proust
Em Busca do Tempo Perdido, Vol. II, pág 210
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